Almada Rock e metal à frente nas fidelidades da vida

Cidade da Margem Sul ganhou fama como Meca dos rockeiros e metaleiros após o 25 de abril.

Na sala de muito reduzida iluminação do Cine da Incrível Almadense, com o volume de som no máximo, fumos à solta e imagens esbatidas no ecrã, tentei falar com um dos presentes, perguntar-lhe as preferências musicais. Da resposta só percebi, se não me engano, “eletrónica alternativa”. Após outra interpelação, ouvi: “Sou Filipe Cruz, músico, tenho uma editora.” Estendeu-me a mão com um cartão e concluiu: “Desculpe, tenho de ir dançar.” Já fora do ambiente da ‘Tarde de Vanguarda’, com entradas a 3 euros por carimbo na mão, li no cartão de visita de Filipe Cruz, jovem de calças e t-shirt pretas, cabelo comprido aos caracóis, que a editora dele é a Enough Records e tem como legenda ‘Free Music For Free People’ (Música livre para gente livre). Parece difícil encontrar melhor legenda para as tribos da resistência em Almada. A cidade da Margem Sul do Tejo construiu, depois do 25 de Abril, uma imagem de verdadeira Meca dos rockeiros e metaleiros. A correspondente Caaba, no centro da mesquita, é a Incrível Almadense, com uma história sem par nos cartazes de rock e metal. Também por bons motivos, a sala foi escolhida para servir de desaparecido Rock Rendez-Vous na série de TV “Os Filhos do Rock”. O correr do tempo quase apagou a história, mas há seis anos, depois de a sala estar fechada e em degradação, um grupo de almadenses resistentes da música criou a Associação Alma Danada para ressuscitar o Cine Incrível: “Vinha aqui ao cinema em criança e, como muitas outras, também cá tive namoros e vivi grandes espetáculos”, recorda Clara Correia, de cabelos prateados.

Ela perde o romantismo quando fala do hoje em dia: “É muito difícil. Pensávamos que eram todos como nós, com os mesmos gostos culturais, mas a realidade é que já ninguém anda na rua e quando saem preferem as esplanadas da Cândido do Reis, em Cacilhas, a vir aqui.” Os apertos de gestão são grandes e não há cachet para ninguém. Os músicos trabalham apenas por uma percentagem de bilheteira que nunca escalda. No sábado, no Tributo aos Night Wish (banda finlandesa de metal-opera) pelos portugueses Night Dreams, as entradas eram a 8 euros com direito a duas bebidas, nunca brancas. Outro ativista da Alma Danada, Jaime Quental, de 23 anos, nascido e criado em Almada e também adepto de vestir de preto, não perde, no entanto, o entusiasmo pelo trabalho na Incrível. Ali acrescentou à sua vida muitas noites memoráveis de concertos com, por exemplo, a banda francesa Black Heat, o americano Esta Tone e portugueses como os Ena Pá 2000, o projeto SVT com Tim e os dois filhos ou ainda o rock psicadélico dos Conjuntivite. Para Jaime Quental, a Incrível resistirá sempre.

Ler mais em: Correio da Manhã

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