Malta de Almada – António Manuel Ribeiro evoca Zé Pedro

1 de Dezembro 2017

Músico, cantor, compositor e poeta. António Manuel Ribeiro lidera a banda portuguesa de rock UHF e escreveu o presente texto a pedido do SAPO 24 na sequência do falecimento de Zé Pedro, fundador e guitarrista dos Xutos & Pontapés.

Zé Pedro e António Manuel Ribeiro no Coliseu de Lisboa, em 1992 créditos: Imagem cedida ao SAPO24 por António Manuel Ribeiro

As ofertas da vida

Recordarei sempre aquela noite em Vila Viçosa, em Agosto de 1979, dois concertos na praça de touros local com UHF, Xutos & Pontapés e Minas & Armadilhas, as ruas que calcorreámos madrugada dentro até não dar mais. Acabámos sentados sobre um tapete à porta do quarto das nossas miúdas na pensão, a única pensão que havia na terra e ficou lotada com o autocarro lotado que o Tó Cabeças e o Pita levaram desde o Vá-Vá até ao Alentejo. Não havia quartos suficientes; adormecemos no chão do corredor.

Em Fevereiro de 1992, foste nosso convidado nos dois Coliseus, Lisboa e Porto. Quando entraste na sala de ensaio dos UHF em Almada e viste uma Gibson Les Paul abandonada, abriste a caixa e perguntaste-me se a podias usar. Claro que sim, era (e é) demasiado pesada para um cantor, ficou-te e fica muito bem na foto. Com os anos compraste uma colecção, vistosas como o esplendor das mulheres dos nossos segredos.

Há dias, quando fui até à vossa sala de ensaio trabalhar com o Tim no projecto “À Sombra do Cristo-Rei”, emprestaram-me o teu combo Orange para ligar a minha nova Gibson SG. Ao ajustar o som do amplificador vi a tua Fender Stratocaster no tripé, uma sentinela do silêncio ali ao meu lado. Calei-me, no turbilhão das imagens a correr por mim; o Tim dera-me as últimas notícias.

Ontem, antes do almoço com uns amigos e três horas antes de a notícia começar a circular, escrevi um pequeno poema enquanto os esperava. É uma oferta da vida, palavras que chegam de algum sítio que não sei nomear:

As coisas estão a mudar Os meus heróis estão a morrer É a vida a passar Há tanto para entender.

Foste um dos nossos heróis; permanecerás o herói que empunhou uma guitarra e abriu o peito aos aplausos que a canção celebra, a ponte que une o artista e o seu público.

António Manuel Ribeiro

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