Imigrantes: Pegões denuncia insalubridade e diz não querer ser uma segunda Odemira

Por Redação S+ Imagem DR -7 de Maio, 2021

Já foram identificados barracões agrícolas onde viviam 60 pessoas. Presidente da junta de freguesia diz que as autoridades estão avisadas da degradação das condições de vida desde dezembro.

A freguesia de Pegões, no concelho do Montijo, ameaça tornar-se numa segunda versão de Odemira, com uma parte significativa dos cerca de dois milhares de imigrantes asiáticos que ali trabalham em explorações agrícolas a viverem em alojamentos sobrelotados e sem condições de salubridade. A situação foi confirmada ao Semmais pelo próprio presidente da união de freguesias, que diz temer pela segurança de todos os residentes e que afirma esperar, desde de dezembro último, que o Estado ponha termo às situações identificadas e já denunciadas.

“Em dezembro, depois de uma rixa entre paquistaneses, com vários feridos e que obrigou à presença do Corpo de Intervenção da GNR, a Assembleia Municipal aprovou por unanimidade uma moção que foi enviada a todas as entidades com responsabilidades, dando conta da degradação das condições de vida em Pegões destas pessoas. Até hoje, apesar de várias reuniões, parecem que todos tentam sacudir o problema. Nada está resolvido”, contou ao Semmais o presidente António Miguéis.

A versão do presidente da união de freguesias é, de resto, diferente da do presidente da Câmara Municipal do Montijo, Nuno Canta, que ao nosso jornal confirmou a realização de diversas operações com funcionários municipais, da freguesia, da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) e da GNR, dando conta de que tinham sido identificadas algumas situações de pessoas a viverem em casas sem condições de habitabilidade, mas que o caso não era preocupante.

“O que eu constato é que vivemos uma Pegões uma situação muito parecida com a de Odemira. A diferença é no número de pessoas”, refere por sua vez António Miguéis, estimando que sejam cerca de 2.000 os asiáticos (paquistaneses, indianos e nepaleses) que vivam na freguesia. Já Nuno Canta, referindo-se à comunidade imigrante, estimou-a em “pouco mais de um milhar”.

Casas esventradas para aumentar capacidade de alojamento

O presidente da União de Freguesias de Pegões e Santo Isidro diz que, na sequência de diversas ações de fiscalização que têm sido efetuadas, até foram encontradas na localidade algumas habitações cujas paredes terão sido derrubadas para assim se obter mais espaço.

“Vi o que não esperava. Há casas com o interior esventrado. Numa delas, com cerca de 80 metros quadrados, foram identificadas 26 pessoas que ali residiam. Têm sido vários os casos em que, dentro da vila, encontramos casos onde vivem oito, dez e até 18 pessoas. Além disso, em alguns barracões agrícolas, já foram encontrados mais de 20 residentes. Num caso havia alguns 60”, disse António Miguéis.

O autarca de Pegões refere, por outro lado, que a situação que se vive na localidade é, em parte, consequência da própria atuação dos arrendatários. “Existe um claro aproveitamento dos proprietários, que não olham a meios para atingirem os fins”, refere. “Já encontrámos pessoas não licenciadas ou registadas pela junta a habitar em casas onde não existem condições. Está tudo ao monte”.

Nuno Canta, por sua vez, admite que “por vezes surgem algumas situações que são averiguadas”, salientando, no entanto, que “não há exemplos de grandes problemas”. O autarca do Montijo entende que as operações de fiscalização que têm sido realizadas “não são de repressão e não acontecem devido a situações que possam estar a ocorrer noutras zonas do país”. “Estas operações são antes uma prática comum no município e que visam detetar e identificar problemas relacionados com questões de saúde (Covid-19) ou de falta de condições nas habitações”.

“Já temos imigrantes que alugam eles próprios casas a outros imigrantes. Cobram entre 100 e 120 euros por mês por cabeça. No caso dos arrendatários portugueses, o preço pode ser um pouco mais baixo”, afirma o autarca de Pegões, referindo que também já aconteceu terem sido localizados, no lugar de Figueiras, alguns imigrantes que tinham contraído Covid-19. “Ficaram confinados e recebiam comida de uma instituição de solidariedade”, explicou.

Canta defende que mão de obra é “essencial”

O presidente da câmara do Montijo entende que a situação da comunidade asiática residente no concelho está devidamente identificada e acompanhada pelos serviços autárquicos e da freguesia, mas também pela GNR e ACT. “Não podemos esquecer que estas pessoas que aqui vivem são essenciais para o concelho, do mesmo modo que são essenciais para o país”, referiu. Nuno Canta diz que se não fossem os imigrantes asiáticos, o setor agrícola, nomeadamente no que se refere às explorações hortícolas e frutícolas, que são particularmente fortes no Montijo, não teriam a atual dimensão. “Estas pessoas são necessárias à produção nacional. As suas condições de vida, nomeadamente as de habitabilidade, são um problema que em grande parte é responsabilidade de quem arrenda as casas. O que sabemos é que quando existe alguma queixa ou suspeita, a GNR é chamada a intervir e depois procede à notificação do proprietário”, afirmou.

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